domingo, 31 de outubro de 2010

Ela não estava ali,


na verdade seu corpo estava presente, mas sua mente voava, viajava para lugares onde seu coração desejava estar, lugares em que seus pés queriam, porém não podiam pisar. Vivia num mundo criado por ela e pra ela, era tudo mera fantasia, doce ilusão. Criava personagens, histórias, figurinos, cenas, tudo para fugir, escapar da realidade ao qual era aprisionada. Inventava vilões e mocinhos, príncipes e castelos, flores e luar e no seu mundo se sentia feliz. Ela sempre partia, figurativamente, pois permanecia sempre imóvel. Estava farta de tantos choros, de agressões, de falta de atenção, carinho. Achava que não era compreendida, ninguém a podia interpretar, estava cheia de tanta reprovação, de ignorância. Era proibida de fazer coisas bobas, simples e normais, diziam que ela devia confiar, se abrir, mas como confiar em alguém que não confia em você? Como tentar se abrir para alguém que não é capaz de te ouvir e te entender? Às vezes tentava se machucar propositalmente, talvez um corte com gilete, talvez uma queimadura, qualquer coisa que fosse capaz de prender a atenção e fazer com que olhassem para ela, com olhar de ternura, como quem quer proteger. Sempre servia de comparação, era comparada a tudo e a todos, e o pior é que ela era sempre a errada, a culpa sempre caía sobre ela, como se ela tivesse ganhado o posto, o título de ovelha negra eternamente. Em algumas ocasiões já pensou se realmente valia a pena viver, já pensou que se “fosse embora” não faria falta a ninguém, pelo contrário, seria um alívio, e menos um fardo para todos. Mas ao pensar bem em maneiras de “ir” chegou a deplorável conclusão que de qualquer forma iria causar estrago, ou, todavia fosse fazer sujeira, logo, desistiu. Tinha que viver conforme os outros queriam, tinha que fazer o que os outros ordenavam, tinha que obedecer, permanecer calada, não possuía opinião própria, nem ao menos voz. Ter ela até tinha, mas não podia falar, era reprimida, deprimida. De vez em quando imaginava-se feliz, plena, fechava os olhos e por vezes chegou a ensaiar coisas que diria, talvez um discurso quando fosse homenageada, quando fosse apenas amada. Entretanto ouvindo os gritos esbaforidos de sua mãe, seu xingamento, suas histerias, percebe que mais uma vez a velha novidade se repete, lágrimas sem fim rolam por seu rosto, um nó parece prender sua garganta, o nariz está totalmente vermelho, se olha no espelho e vê aquela cena se repetir, contempla seu rosto e pensa se algum dia aquilo terá um fim. Seu quadro parecia não ter solução, aquele inferno não cessava jamais. Sempre havia sido tachada e por esta razão acreditava ser muito nova ou muito velha, muito gorda ou muito magra, muito alta ou quem sabe baixa, nem sabia quem realmente era devido a tantos rótulos recebidos. Não importava o que houvesse, ela sempre era inadequada. Não sabia o que fazer para se livrar dessa tormenta, então sutilmente tampava os ouvidos, enxugava as lágrimas, engolia a tristeza a seco e solitária viajava, ia de volta ao ‘seu mundo’ pro lugar no qual ela não precisava usar máscaras, nem finjir ser quem não era, naturalmente partia, partia pra bem longe, partia ao meio, tinha a alma, a auto-estima, o coração partidos, e pra não ser partida de vez, partia pra um lugar ao sol, pro lugar dos sonhos, partia ali parada, tão sozinha distante em outro lugar, tão sozinha onde nunca deixou de estar.

Um comentário:

  1. Parabéns amiga,estou cada vez mais impressionada com o teu talento de escrever textos tão bonitos,siga em frente sempre com este blog,te amo mil!bjs loka

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